Thursday, March 28, 2013

CINEMAS 1961-1962



LP 'Filmelandia' da Columbia de 1961, trazendo na capa luminosos de cinemas paulistas e cariocas. Dos paulistas, ressaltam-se Cine Regina, que exibia 'Ben-Hur', Cine Olido, Cine República, Cine Art-Palacio, Cine Coral e Cine Metro. Do Rio de Janeiro destacam-se o Azteca e o Bruni-Flamengo. 


C I N E M A S    D E    S Ã O   P A U L O    N O S    A N O S    1 9 6 0


Eu nasci em Marília-SP, dista a 500 km Oeste da capital do estado, no último ano da década de 40. Uma cidade de porte médio, para a época, com 30,000 habitantes, incluindo-se aí urbanos e rurais. Vivi meus primeiros 11 anos de vida nesta cidade-sonho. Lembro-me de ser levado ao Cine Marília bem pequeno, como acompanhante (segurar vela) de minha tia Maria Rosa e seus vários namorados. Só sei que não entendia nada, pois não sabia ler, e a tela era muito grande. Eu sempre acabava adormecendo durante a sessão, que, invariavelmente, era noturna.

A partir dos 8 anos, em 1957, eu, minha irmã adotiva, Maria Lucia e meu irmão menor, Osvaldo começamos a freqüentar as matinées de domingo do famoso Cine Marília, o preferido da garotada. Na realidade havia o Cine São Luiz também, mas era do ‘outro lado’, e lá não íamos. O São Luiz tinha poltronas estofadas, ao passo que no Marília, as cadeiras eram de ‘pau’. Havia um 3º cinema na cidade, o proverbial ‘cinema-do-padre’, que ficava Rua Sergipe, 245, transversal à rua da catedral de São Bento e era chamado de Cine Juventude Católica. Mas a programação do Cine Juventude Católica dependia da ‘vontade do padre’.

Eu descobri um mundo de fantasias nas matinées do Cine Marília, que consistiam de jornal-da-tela, desenhos animados, dois filmes de aventura, e um ‘seriado’ de 15 minutos no final. O cinema lotava invariávelmente e a platéia era animadíssima, composta por 99% de crianças. Não se esqueça que vivíamos num outro Brasil, que quem nasceu depois dos anos 70 não tem a mínima idéia como era. As crianças andavam sem a tutelagem de adultos pelas ruas; não havia a paranóia dos tempos de hoje, que é produto do ‘desenvolvimento segregado’ implantado a partir do Golpe Militar de Abril de 1964.

Em Dezembro de 1960 minha familia mudou-se para a grande cidade de São Paulo. Não muito tempo depois, meu tio Cláudio, irmão mais novo de meu Pai, resolveu me levar ao Cine Boulevard, na rua Antonio Godoy, para assistir ao filme ‘Os 10 mandamentos’. Minha vida mudou totalmente a partir desse abençoado dia. Foi quase como entrar no Paraíso. O cinema era lindo (para mim), num tom entre amarelo-escuro e bronze, com cortinas imensas, e o filme era mais incrível ainda. Foi a partir desses primeiros dias de 1961 que comecei a freqüentar o centro da cidade.

Relato minha experiência de menino, sem me importar muito com a cronologia, embora quase tudo se encaixe entre 19611964.  Notei logo que aqui em São Paulo havia muito jornal. Nas feiras eles embrulhavam alface, tomates, peixe, enfim, quase tudo, em jornais; e notei, particularmente, que as ultimas páginas desses jornais sempre traziam lindos reclames das dezenas de filmes que estavam em exibição na centena-e-meia de cinemas espalhados por esta cidade imensa. Não só aqueles do Centro, mas também dos inúmeros bairros que se espalhavam pelos 4 cantos.

Nós viemos morar na Vila Madalena (que não tinha cinema) e freqüentávamos os cinemas de Pinheiros: Cine Brasil, na rua Teodoro Sampaio, Cine Jardim, na rua Fradique Coutinho, que só exibia filmes da MGM e o Cine Goiáz, sim,  com Z, que era o mais ‘fuleiro’, e ficava na rua Butantã, perto do Largo de Pinheiros, onde o bonde fazia o ‘balão’, para voltar p’ra Praça Ramos de Avezedo. Pode perguntar p’ro Joaquim e sr. Gouvêia que eles vão te falar desses cinemas;  e sr. Gouveia ainda vai falar do antigo Cine Pinheiros, que já estava desativado em 1961, mas ainda de pé, embora logo depois ele tenha desabado (descobri isso nas minhas pesquisas de jornais antigos no Arquivo do Estado). Sorte é que não havia ninguém lá dentro.

Você me perguntou quando começou a ‘decadência’ dos cinemas e eu não soube precisar. Na verdade, mesmo em 1961, já havia uma mudança no ar, devido ao crescimento do número de aparelhos de TV nos lares paulistanos.  O Cine Ópera, na rua Dom José de Barros, que só exibia filmes da United Artists, e se rivalizava com o Metro [que era exclusivo da MGM], já havia sido demolido em 1960. Portanto o auge da ‘cinelândia’ paulistana já havia passado.

Não me lembro qual foi o segundo cinema que eu entrei. Talvez os de Pinheiros. O Cine Brasil se parecia bastante com o Cine Marília, pois as fileiras eram de assentos de madeira [de pau]. Lá assisti ‘101 Dalmatas’ em 1962. Me lembro que quando cheguei em casa do cinema, Aquarela do Brasil’, com a orquestra de Ray Conniff estava em 1º lugar na parada de sucesso daquele domingo. No cine Jardim me lembro de ter assistido ‘A ultima vez que vi Paris’, em reprise já, com Elizabeth Taylor e Van Johnson. A personagem de Liz contrai tuberculose e morre, Elizabeth, a atriz, contrai pneumonia e quase morre no final da filmagem de 'Butterfield 8' de um romance de John O'Hara. 

Comecei a acompanhar a programação cinematográfica pelo Estadão, que era o jornal que tinha os melhores e maiores reclames de cinema. Tomava o bonde ‘Praça Ramos-número 28’, na esquina da rua Fradique Coutinho com a rua Aspicuelta e ia para o Centro, e a cada sábado eu conhecia um novo cinema. O Centro era mágico para mim

Fui assistir ‘Ben-Hur’ no Cine Regina, que ficava na Av. São João lá perto da Pirani, aquele prédio que queimou em 1972. Era super-luxuoso, e novíssimo, tendo 1 ano apenas de existência. Acarpetado de vermelho e azul desde a entrada até o banheiro;  tinha, no hall, uma parede inteira espelhada e eu, bobinho, pensei que eram dois cinemas. Demorou para eu perceber que era espelho.  Entrar naqueles cinemas era uma experiência fascinante para um menino que mal tinha chegado à S.Paulo, vindo do interior. Era a época dos filmes épicos.

O Cine Olido tinha a entrada mais interessante, pois aqueles imensos ‘stands’ – não sei como se chamavam aquelas peças enormes feitas de madeira-compensada – da altura de uma pessoa adulta, que eram manufaturadas nas oficinas dos próprios cinemas, onde o artesão combinava as fotos e posters vindos de Hollywood or Cinecittà, com letras estilizadas e desenhos próprios para anunciar os filmes que passariam no futuro próximo. Eram verdadeiras obras-de-arte. O tamanho ou sofisticação desses ‘stands’ dependia da importância dos filmes anunciados.  Me lembro de uma Audrey Hepburn de tamanho natural, colada em cima de madeira compensada recortada, segurando uma piteira longuíssima, anunciando o filme ‘Bonequinha de luxo’ (Breakfast at Tiffany’s) no saguão do Cine Ipiranga.  A photo da Audrey em tamanho natural, provavelmente vinda dos U.S.A., foi colada numa estrutura de madeira-compensada e ficou um ‘chuá’.

Ah, o Cine Ipiranga por ter um saguão enorme, era, junto com o Olido, os que tinham mais desses stands.  Você ia entrando e via essas estruturas dos dois lados do saguão... 6, 7, 8 estruturas anunciando filmes que, as vezes, demorariam ainda 6 meses para serem exibidos.

O Cine Olido era luxuosíssimo, e tinha um cheiro [perfume] especial. Aliás, outro que tinha um perfume que nunca saiu de minha memória era o Cine Windsor, alí na esquina da Av. Rio Branco e Ipiranga, que foi inaugurado em Julho de 1961, com 'Eu, pecador', filme mexicano sobre a vida de Frei Mojica, estrelado pelo ator brasileiro Pedro Geraldo. Em 1962, o Windsor estreou o épico ‘El Cid’, com Charlton Heston e Sophia Loren.  Na verdade o Cine Windsor foi o ultimo cinema-de-luxo a ser inaugurado no centro da cidade, antes dela começar a entrar em decadência.  Isso, se excluirmos o Cine Metrópole, inaugurado em 1964; mas esse ultimo já era dentro de uma galeria e não diretamente numa rua central.


 Cine Windsor inaugurado em 19 Julho 1961 - quarta-feira - Folha de S.Paulo

Em frente ao Windsor, na avenida Ipiranga, havia o Cine Marco PoloNão era grandes coisas, mas se tornou inesquecível para mim, pois lá assistí ‘O morro dos ventos uivantes’ (Wuthering Heights), um clássico do ano de 1939, considerado por muitos historiadores como o ano do Auge do cinema norte-americano. O cine Marco Polo ainda existe fisicamente, pois é um teatro pornô atualmente.

Virando a av. Rio Branco, havia vários cinemas. Cine Mônaco, ali do lado daquela igreja Luterana. Em 1962 inaugurou-se o Cine Atlas na mesma calçada, antes de chegar no Cine Mônaco, onde eu fui ver uma coletânea-documentário do Harold Lloydcômico do cinema-mudo, que eu adorei. Gostei mais do Lloyd do que do Charles Chaplin, de quem era fã incondicional.  Aliás, quem gosta muito do Harold Lloyd é o Paulo Iabutti.

Eu gostava muito de cinema dos anos 30 e até dos poucos filmes mudos de Chaplin que assisti. Por isso eu entendo vocês jovens, que gostam de coisas antigas. Eu era a mesma coisa;  tinha 13 anos e gostava de ver filmes feitos em 1937. Ah, o Cine Mônaco era exclusivo exibidor dos filmes da Pel Mex – Películas Mexicanas.  Muita Dolores Del Rio, José Mojica, Libertad Lamarque, Pedro Armendariz, Maria Felix,  Miguel Aceves Mejia... e outros grandes do cinema latino.

O Cine Rio Branco era luxuosíssimo também.  Em 1960 – pouco antes de nós nos mudarmos para São Paulo – o Rio Branco era exclusivo (em todo estado) na exibição da super-produção ‘Spartacus’, do Kirk Douglas, por 6 meses. Naquele tempo, quando o filme era muito importante, o expectador tinha que comprar o ingresso com antecedência, e as poltronas eram numeradas, pois não se sabia se a sessão iria lotar.  E também havia diferentes preços de acordo com o lugar do assento. O cinema era como se fosse um teatro. Aliás, muitos se chamavam Cine-teatro. Na rua 7 de Abril havia a famosa ‘Casa do Espectador’, que só vendia ingressos para cinemas e teatros de toda Paulicéia. Como você pode notar, nós já fomos 1º Mundo.

Mais adiante, na Rio Branco, em direção aos Campos Elíseos,  havia o Cine Normandie, tb. luxuoso, que só exibia filmes franceses.  Em 1962 o Normandie já exibia filmes variados (de qualidade) e eu fui ver Exodus’, com sua maravilhosa trilha-sonora lá. Você pode notar que eu faço a ligação dos cines com os filmes que eu vi. Ir ao cinema era um acontecimento, pelo menos para mim. Eu, geralmente, ia ao cine aos sábados de tarde, na primeira sessão, que começava as 14 horas, dependendo da metragem do filme.  Os filmes épicos tinham mais de 2 horas de duração e os horários ficavam ‘quebrados’.

O Cine Marrocos, na Conselheiro Crispiniano, nós já falamos a respeito. Era considerado o cinema mais luxuoso da cidade, embora, eu preferisse outros. O Marrocos era ‘sóbrio’, todo em azul marinho escuro, tanto as cortinas como os carpetes e poltronas de couro negras. O Marrocos era famoso pelas suas poltronas ‘pullman’ lá em cima, onde você pagava um preço maior. Mesmos as poltronas ‘normais’ deles já eram muito fôfas, e giravam um certo grau; não eram presas umas às outras, como nos outros cinemas. Não podemos esquecer que havia uma fonte jorrando água no saguão principal, lembrando um pouco aquele símbolo da Atlântida.


Eu nunca fui fã do Cine Marrocos, pois o achava muito grande e eu me sentia pequenino demais lá dentro. Além de grande ele era 'escuro', tudo em negro e azul-marinho escuro. Era sóbrio demais. Não havia cor. Mas ali se realizavam muitas premières de filmes nacionais. Eu nunca me esqueço de ter visto a Odete Lara de vestido longo branco e casaco de peles, subindo magistralmente as escadarias do Marrocos,  junto com várias outras luminares. Era a pré-estréia da co-produção argentino-brasileira de ‘Esse Rio que eu amo’.  Me lembro que achei a Odete Lara pequena demais e o rosto muito branco de make-up exagerado. Não se esqueça que o Marrocos, inaugurado em 1954, para o Festival de Cinema do IV Centenário de S.Paulo, tinha apenas 7 anos de existência.

Se você me perguntar qual cinema eu achava mais bonito eu não saberia dizer.  Se eu tivesse que escolher um em detrimento do resto, acho que escolheria o Cine Metro. Como já te falei, o Cine Metro era luxuoso em tudo; até os chandeliers internos tinham luzes que escureciam gradativamente, como as do Theatro Municipal.  A arquitetura era a mourisca, que era uma ‘franchising’ da MGM no mundo inteiro. Você podia ir ao Metro de Bombaim, na India, que v. tinha o mesmo luxo daqui da São João, de New York ou Londres.

Diria que o auge da minha experiência cinematográfica foi aquele Festival de Operetas da MGM apresentado em 1963. Pedia para sair meia hora mais cedo do serviço em Pinheiros, pegava um ônibus e chegava ao Metro antes do término da sessão da 16 horas, ficando ali no saguão esperando 5 minutos as portas se abrirem para a sessão das 18. A platéia das 16 saía pelas portas laterais, direto para a rua do lado. Assim que as portas se abriam, senhoras com seus visons e senhores em seus melhores ternos, nervosamente entravam para conseguirem os melhores lugares. Menos de 3 minutos depois, todos já estavam em seus lugares, as luzes se extinguiam aos poucos e o mundo musical encantado das operetas começava.

Hoje você pode até assistir ‘Primavera’ (Maytime), com Jeanette MacDonald & Nelson Eddy, ou ‘A viúva alegre’ (Merry widow), com Jeanette & Maurice Chavalier em DVD, mas ver tais filmes projetados na imensa tela prateada é outra coisa;  e uma platéia selecionada faz toda a diferença.  Você podia ouvir – ou sentir, os suspiros das pessoas a relembrarem os anos ’30 quando elas eram adolescentes. Ir ver uma opereta no cine Metro era melhor que ir assistir um concerto no Theatro Municipal.

Esse Festival de Operetas fez tanto sucesso pelo mundo afóra, que a MGM bisou com o Festival Greta Garbo. Foram 6 filmes diferentes da Divina; um por dia. O glamour continuava à toda, embora eu, particularmente, talvez por ser musical, achasse que as Operetas, e principalmente, Jeanette McDonald era imbatível em beleza, candura e voz. Mas gostei muito da Garbo também.



Não falei dos cinemas japoneses pois nunca os visitei.  Havia o Cine Nippon, fundado em 1959 na rua Santa Luzia, hoje é sede da Associação Aichi Kenjin. Havia o Cine Tokyo, fundado em 1954, na Rua São Joaquim - depois mudou o nome para Cine Alamo. O maior deles era o Cine Jóia, que passava só filmes da Toho, ali na praça Carlos Gomes; virou night-club nos anos 2000. Havia um outro, Cine Niteroy, na rua Galvão Bueno, que foi derrubado para construção da Radial Leste-Oeste (Minhocão) sendo 'transferido' para a esquina da Av. Liberdade com a rua Barão de Iguape. Cada cinema era distribuidor de uma grande companhia japonesa. Cine Tokyo exibia filmes da NikkatsuNiterói da Toei; Nippon da Shochiku e Joia da Toho

Na esquina da rua Cincinato Braga, com a av. Brigadeiro Luiz Antonio havia o Cine Lar, que só passava filmes árabes. Dá para acreditar nisso?  São Paulo era uma cidade verdadeiramente cosmopolita.

Segundo o jornal Estadão de 10 de Janeiro de 1961, havia 139 cinemas espalhados pelos vários bairros de São Paulo. Esses eram os cinemas oficiais, não contando-se os ‘cinemas-de-padre’ e outros cines de associações esportivas, de bairro etc. A igreja do Calvário, que eu frequentava – aquela da praça Benedito Calixto, em Pinheiros – tinha um ‘cineminha’, que na verdade não era tão pequeno assim. Lá eu assisti muitos filmes de Sarita Montiel, Jerry Lewis, Burt Lancaster, além de Gordo & Magro e outros. Havia sessão nas tardes de domingo, e era grátis para quem frequentava a missa de manhã. Quantos mais cines havia nesta grande cidade?  Só os moradores locais é que poderiam dizer.

Os cinemas de bairro que eu conheci foram os de Pinheiros, que já citei, mais os da Paulista-Augusta-e-Consolação, a ver: Cine Astorque era chiquérrimo, hoje é Livraria Cultura; Cine Trianon, que depois virou Cine Belas Artes; Cine Ritz-Consolação, demolido quando alargaram a rua da Consolação;  cine Marachá, na Augusta, que, as vezes, servia de auditório da TV Tupi; cine Majestic, na Augusta também, que depois virou Teatro Record-Augusta;  cine Picolino, rua Augusta, 1513, e o Cine Paulista, na rua Augusta, p’ro lado dos Jardins.

Na Vila Mariana havia vários cinemas, dos quais cito apenas o Cine Cruzeiro, na Domingos de Moraes, que virou super-mercado.

Atravessando a ponte sobre o Rio Pinheiros, em direção à Osasco, havia o cine Eldorado, na rua Vital Brasil, 427, que em 1962 ainda passava ‘seriados’, quando os do Centro já tinham deixado tal prática há muitos anos. Osasco, que era um bairro de São Paulo antes de 1962, tinha o Cine Glamour e o Cine Estoril.

O cine Monark, na Brigadeiro Luiz Antonio, virou Teatro Tupi na década de 70, e hoje é Teatro Jardel Filho; Cine Rex, na Bela Vista, virou Teatro Aquarius.

Na Zona Leste havia muitos cinemas, mas só conheci o Cine Universo, na Av. Celso Garcia, que era o maior de S.Paulo, ou um dos maiores; fui ao aniversario do Roberto Carlos lá em 1966.  Uffa... acho que só.

Os cinemas de bairro tinham ‘vida própria’, pois continuavam a fazer suas proprias programações especiais.  Muitos ainda exibiam os famosos seriados’, filmes de aventura de 15 a 20 minutos, que passavam depois das atrações principais, e que terminavam num suspense infernal, para ‘continuar na próxima semana’. Era um chamariz para o publico voltar na semana seguinte. Esses seriados começaram a ser produzidos em Hollywood no inicio do próprio cinema, e atingiram seu auge nos anos 40. No inicio dos anos 1950 já estavam em decadência, mas aqui no Brasil ainda eram populares mesmo já tendo morrido nos U.S.A. Muitos cinemas de bairro ainda exibiam os tais seriados. Pinheiros não os exibia, mas era só atravessar a ponte sobre o rio e o cine Eldorado, na Vital Brasil, já passava os deliciosos seriados. É só perguntar para aquele pessoal do Pateo que chega mais tarde, o Fausto, sr. Gouveia, sr. Manoel, pois eles são todos fanzérrimos desses 'seriados', e eles te contarão as aventuras todas de cor-e-salteado. Os seriados eram uma paixão para a garotada em geral. Mesmo eu, que vi tão poucos, não os esqueço jamais, e depois do aparecimento da Internet consegui entrar em sites sobre eles que são feras.

Cinemas de bairro também não deixavam filmes ‘morrerem’. Filmes continuavam a serem exibidos muito tempo depois de passados seus prazos-de-validade. Só para dar um exemplo mais recente:  ‘Dio come ti amo’, um filme branco-e-preto romântico italiano lançado em 1967, ficou algumas semanas em cartaz no Centro. Só que ‘Dio come ti amo’ teve ‘vida própria’ nos bairros, e se v. pesquisar jornais de 1970 ou mesmo 1974, você, na certa achará um cinema de bairro que o está exibindo. Os filmes ficavam 3, 4 ou 5 anos em cartaz. Se você precisasse ver determinado filme era só pegar o Estadão e procurar pelos bairros, que v. talvez achasse o que procurava. Era assim com os filmes de Joselito, Marisol, Sarita Montiel, Cantinflas, Zé Trindade, Oscarito & Grande Otelo, Eliana, Mazzaroppi e outros.

Eu não cheguei a pegar os cinemas do ‘centro-velho’.  Não conheci o Cine Alhambrana rua Direita, nem o Rosário, que era no Edifício Martinelli, na rua São Bento. Dizem que o Rosário era o mais luxuoso daquele tempo. Nunca cheguei a entrar no Cinemundi ou Cine Santa Helena, ambos na Praça da Sé. Esses cinemas já tinham fama de ‘pulgueiros’ ou ‘cinema de pegação’. Cinema-de-pegação, você deve saber, eram frequentados por homossexuais a fim de ‘transa fácil’. Esses cinemas já tinham entrado em decadência, e as coisas rolavam mesmo.  Daria para fazer um livro só desse assunto. Meu irmão Fernando me disse que tinha ido ao Cinemundi e alguém tentou passar a mão nele lá. Mas as arquiteturas do Cinemundi e Santa Helena eram de ‘cair o queixo’, pelo que me disseram.

No final dos anos 60, tinha um amigo que frequentava o Cine Marabá... no final dos anos 1960s já tinha se tornado 'cinema-de-pegação. Aliás, o Cine República, o maior cinema do centro, também virou cine dessa categoria. Em 1962 eu frequentei muito o Cine República, pois lá passavam filmes épicos produzidos na Itália. Os chamados filmes de ‘sandália e areia’ (sandal & sand)... pois a maioria dos heróis romanos [ou gregos] andavam de tanguinha e sandalinha. Foi uma época muito cafona para o cinema europeu e de muito dinheiro para os halterofilistas que ficavam famosos do dia para noite, fazendo papéis de Hércules, Ursus, Maciste, Sansão... toma herói grego-falso e romano-de-aráque.


Cine Republica quando Cinemascope era chic e as telas aumentaram de tamanho para lutar contra a telinha da TV. Tamanho não é documento e o cinema perdeu a batalha contra o video. Ganhou o menor! 
Cine Republica, já em decadência, apresentando 'Frankenstein' de Andy Warhol em 3a. dimensão; Avenida São João's cinemas at the cover of O Cruzeiro 3 July 1965. 

Por falar em europeu, o Cine Coral, na rua 7 de Abril, só passava filmes italianos e francêses.  Era chiquíssimo. O Coral veio substituir o Cine Jussara, na rua Dom José de Barros, que ‘decaiu’ e só passava filmes ‘proibidos’. Filmes proibidos, naquele tempo queria dizer filmes com forte teor de sexo. Mas, note que não eram pornográficos, pois pornografia era proibida. A primeira vez que eu vi um filme pornográfico em minha vida foi em 1972, em New York, quando eu já tinha 22 anos, num cinema na Rua 42 (42nd Street) que, aliás, já estava em decadência também.

Na Praça Roosevelt, antes do Maluf a ‘denotar’, havia o minúsculo Cine Bijou, cinema-de-arte. Foi inaugurado no começo da década e era uma gracinha. Devia ter menos de 100 lugares... parecia que v. estava numa sala-de-estar grande. Lá assisti ‘Morangos silvestres’ do Ingmar Bergman e peguei gosto pelo cinema escandinavo e europeu oriental, como tcheco, polonês, russo etc. Descobri que gostava do som da lingua sueca, que entre as línguas germânicas é a mais melodiosa, pelo menos na minha opinião.  Fiquei fã da Ingrid Thulin, Bibi Anderson e todas aquelas atrizes suecas maravilhosas, que nunca ‘emplacaram’ em Hollywood.

No quarteirão da Avenida São João entre a rua Dom José de Barros e Av. Ipiranga havia o Cine Rivoli, onde passou ‘Marcelino pão e vinho’ e os  filmes da Marisol e Joselito, atores-cantores mirins do cinema espanhol.  Marisol esteve alí em pessoa junto de Anselmo Duarte, o galã do filme e seu ‘tio’ em ‘Un rayo de luz’, quando de sua pré-estréia. Esse cine Rivoli foi construído no lugar do antigo Cine Ritz. Era um luxo só. Depois demoliram, fizeram aquele prédio horroroso que é só garagem.

Atravessando a São João tinha o Cine Broadway com sua fachada Art-Deco. Infelizmente eu nunca entrei. Eu gostava da fachada do Broadway, pois parecia um bolo de noiva. Não sei porque nunca fui lá. Talvez porque nunca tenha passado um filme que me interessasse. O Broadway já estava em decadência e foi demolido em 1963 ou 1964.

Cine Art-Palácio, na Avenida São João, em frente ao Largo do Paisandú ainda era luxuoso nessa época. Tinha começado como Cine UFA (Universum Film AG, em alemão) só exibindo filmes dessa companhia alemã, mas quando o Brasil entrou na Guerra do lado dos EEUU, eles ‘confiscaram’ o cinema.  Quando a Alemanha perdeu a guerra, a Ufa perdeu sua cadeia de cinemas espalhados pelo mundo. Mazzaroppi sempre fazia suas pré-estréias lá. Hoje virou cinema pornográfico e foi desfigurado em várias salas imundas.  Hoje nem sei o que é. Provavelmente cinema-de-flagelação, pois ‘pegação’ é pouco.

Do lado de lá do Largo do Paissandú havia o Cine Bandeirantes, do circuito Serrador, no qual eu vi ‘Casinha pequenina’, super-produção do Mazzaroppi em côres. Depois mudaram o nome para Cine Ouro, virou ‘pornô’ nos anos 90 e hoje é um estacionamento. 

Do lado de cá, o Cine Paissandú, que foi construído pela mesma firma que fez o cine Ipiranga, pois eram bem parecidos. Um cinema imenso com vários andares; v. tinha que pegar elevador para ir de um piso ao outro. Ainda está lá, esperando se transformar em estacionamento ou igreja universal. Lá passou ‘Esquina do pecado’ (Back street) com John Gavin e Susan Hayward.

No Cine Barão, dentro de uma galeria da rua Barão de Itapetininga eu assisti Flor de Lotus’ (Flower drum song), um musical sino-norte-americano, que adorei. Era um cinema novo. Eu gostava dos cinemas que eu tinha ‘sido feliz’, ou seja, que tinha visto uma ótima fita, como se falava antigamente. Cinerama, ou Cine Comodoro, na av. São João, lá perto da Duque de Caxias era ótimo também.  Eu vi todos os filmes do sistema Cinerama; acho que foram 6 ou 7 filmes especiais, já que eram projetados por três projetores especiais; o Comodoro era o único lugar no Brasil que possuia o tal cinerama.

No Largo do Arouche havia o Cine Pigalle; hoje chama-se Cine AroucheLá eu assisti ‘West Side Story’ [Amor sublime amor], outro musical estonteante.

Lá no Anhangabaú tinha o Cine Dom Pedro II, do lado do Banco de Boston. Lógo que chegamos em São Paulo, alguém reclamou que meu Pai nunca levava minha Mãe ao cinema, e o ‘velho’, para provar que não era ruim, levou minha pobre Mãe ao Cine Dom Pedro II.  Meu Pai, vindo do interior, não sabia que esse cinema já estava em decadência. Mas mesmo assim, minha Mãe gostou.  

Do lado de cá do Anhangabaú tinha [e tem até hoje, mesmo depois de vários incêndios] o Cine Cairo. Esses cinemas já passavam ‘programa duplo’, ou seja, dois filmes de aventura, para plateias não muito exigentes, geralmente pessoas desempregadas ou a fim de ‘matar’ tempo. Frequentei muito o Cine Cairo nos anos 70, quando estava desempregado.

Aliás, o quesito ‘cinemas-de-desempregados’ daria para fazer um livro. Havia o Cine Arizona, em frente ao Cine Mônaco, na Av. Rio Branco; mas note que o Arizona já foi inaugurado decadende. Todos os filmes do Audie Murphy que assisti foram lá.

Cine Oásis, que nos anos 40 era um dos mais luxuosos, na praça Julio Mesquita, era um desses ‘cine-para-desempleados’. De vez em quando havia batidas policiais durante o dia – isso antes da Constituição de 1988 –  e os cidadãos tinham que mostrar suas carteiras-de-trabalho [ou falta de trabalho] para os meganhas empunhando suas armas.

Cine Sacy, na Av. São João, perto do Anhangabaú, também já nasceu decadente. Foi inaugurado no final dos anos 1960s e já era cinema-de-desempregados desde o primeiro dia. Só passavam ‘westerns’ italianos, os chamados ‘spaghtetti-western’, ‘Django’, ‘Ringo’ e todos aqueles abacaxis filmados no deserto da Espanha. O cheiro de chulé era indescritível, pois os desempregados, cansados de suas caminhadas em busca da vil ocupação, tiravam os sapatos para descansarem os pés... e a fedentina dominava o ar parado.

Havia um cinema pequeno chamado Cine Europa, que ficava na Rua Joaquim Gustavo, 40 - aquela rua de um quarteirão, que sai da Praça da República e dá na rua Aurora. Ensaiou ser cinema-de-arte durante algum tempo, mas não chegou a convencer.  Eu gostava de lá, pois não grande. Mais tarde trocou de nome passando a se chamar Cine America. 

Por falar em rua Aurora, que era sinônimo de prostituição (Boca do Lixo) nos anos ’60, lá tinha o famoso Cine Áurea, que como o Cine Jussara, na Dom José de Barros, só exibia filmes ‘proibidos’, produções geralmente européias onde o sexo vinha em primeiro lugar. Mas note que não eram filmes pornográficos... o ‘ambiente’ dos filmes tinham uma forte conotação erótica, mas se fossem vistos hoje, seguramente as pessoas achariam ridículos.

Ah, do outro lado da rua Aurora tinha o Cine Los Angeles, que exibia filmes ‘bang-bang’ e aventuras sortidas.

Fui ao Cine Normandie nos anos 90 e me choquei, não só com a fedentina e o cheiro forte de mijo que vinha dos banheiros debaixo da tela, mas, você acredita que, havia um vazamento nos canos, e a água suja das latrinas escorria para a platéia? Foi a cena mais deprimente que já presenciei em toda minha vida de amante de cinema. Nunca se desceu tão baixo quanto o Normandie.  Eu pensei que fosse só aquele dia, mas retornando posteriormente, notei que o vazamento continuava; então era algo comum por lá.  Ah, havia não só ‘pegação’, como também prostituição desbragada.

Falando em cinemas de 2a. e 3a. linhas;  havia um cinema-de-desempregados ali na rua Roberto Simonsen, pertinho do Pateo do Colégio. O pior é que eu não me lembro o nome do ‘pulgueiro’. Fui lá nos anos 70 assistir um filme de ‘Batman’, da famosa serie de TV dos anos 1960.
A decadência do Centro de São Paulo

A decadência do cinema em si, como forma de entreterimento, começou com o surgimento e fortalecimento da TV. Outro factor foi o ‘esvaziamento’ do Centro, devido a políticas públicas equivocadas tomadas pelas várias Juntas Militares que governaram o Brasil entre 1964 e 1985. Vinte e um anos de obscurantismo multiplicado pelo emasculamento da Classe Média, que foi sendo segregada cada vez mais para dentro de seus condomínios fechados; e a Classe Operária cada vez mais pauperizada e marginalizada em favelas beirando riachos fedidos.

Enfim, o Brasil, que tinha um futuro promissor em 1960, com a inauguração de Brasília, se transformou num grande fracasso político, e hoje (2013) está tentando ‘acertar o passo’. Mas erros de várias gerações não dão para serem consertados em uma geração apenas. Não dá para explicar a decadência do Centro de São Paulo se v. não ver a Política Nacional como um todo, pois o ‘micro’ é resultante do ‘macro’. O que se passou com o Centro, foi o empobrecimento do próprio Brasil como sociedade organizada, quando tomou o caminho do autoritarismo imbecilizado introduzido pela Tragédia de Abril de 1964.

A Classe Dominante nacional tem um costume antigo de se ‘enjoar’ do ‘velho’ e sempre procurar algo ‘novo’. Primeiro aconteceu com o chamado ‘centro velho’; as velhas ruas estreitas, como a Direita, São Bento, XV de Novembro etc. Depois da construção do Viaducto do Chá, o ‘centro velho’ foi gradativamente transferindo-se para o ‘outro lado da ponte’.  Os logradouros ‘chics’ se tornaram as ruas Barão de Itapetininga,  24 de Maio, e principalmente a ‘nova Broadway’, que era a Avenida  São João; a ‘nossa’ Times Square sendo a confluência da São João e Ipiranga.

Passadas duas décadas,  já estavam procurando um ‘outro’ centro. Com o alargamento da rua da Consolação ficou mais fácil se locomover até a Avenida Paulista, lá no topo do morro, que antes ninguém queria ir, pois era ‘muito longe’, além de ter que ‘subir um morro danado’.  No final dos anos 60, a região da Av. Paulista já ensaiava se tornar o novo ‘centro’, o que efetivamente se confirmou nos anos 70. Depois, já não contentes com a Paulista, resolveram que o ‘centro’ deveria ser nos chamados ‘Jardins’, tendo a Av. Faria Lima como sua artéria principal.  Atualmente (2013) nem a Faria Lima é mais o ‘centro’, tendo este se transferido para a Luiz Berrini, bem perto do Rio Podre & Fedido, o infeliz Rio Pinheiros, que mais de 70 anos de governos estaduais conservadores não conseguiram despoluir.

Nossa Classe Dominante é de uma ignorância ímpar, pois nunca conseguiu resolver suas contradições ululantes – perdão Nelson Rodrigues. Para amainar seu sentimento de apatia e fracasso está sempre buscando um ‘novo’ que nunca se realiza, pois ela teria que mudar a si própria e não suas cercanias.  

Por que saíram do Centro? Por que abandonaram a Paulista?  Por que nem a Faria Lima, com sua  Tiffany’s foi suficiente?  Por que não se realiza em lugar algum? Porque, na verdade, essa Classe gostaria de morar em New York ou Miami.  Isso se chama Colonialismo Cultural.  É você super-valorizar a Cultura da Metrópole em detrimento da sua própria. Essa CD – Classe Dominante –  sofre do mesmo mal desde os tempos de D.Pedro I e II. Primeiro seu ‘ideal’ era Lisboa, depois Paris, mais tarde, Londres... agora é New York, ou sei lá o que.

Quando inauguraram a Galeria Metrópole em 1964, junto já veio o cinema de mesmo nome, que era considerado o mais ‘moderno’ então. Mas essa modernidade não durou nem 10 anos, pois em meados dos anos 70, o Centro já tinha perdido seu brilho.  A região Avenida São Luiz era chiquíssima, pois era reduto das agências de viagens e escritórios de companhias aéreas.  Alí v. ouvia lingua estrangeira como se fosse a lingua local. Tanto que o Hilton Hotel foi construído por alí. 

Eu não posso te precisar a data exata da ‘detonação’ do Centro. Mas já em 1975 o Centro não era mais o mesmo.  Eu frequentei bastante o Centro durante a ‘abertura política’ de 1979 e 1980.  Inclusive eu era militante do PT, que ainda não era legal, e colhia assinaturas para legalização do Partido dos Trabalhadores nos prédios do Centro. Me lembro de percorrer o Edificio Copan de cima a baixo, batento em dezenas de apartamentos para assinarem a Petição de Legalização do PT. Para v. ver como era diferente então. Não havia ‘guardinhas’ nem ‘seguranças’ nos edificios.  Você entrava e ia batendo nas portas, e, pasme, a maioria das pessoas assinavam a petição. Isso era 1980. Em 1981 eu fui para a Australia e só voltei em 1989. Quando fui ao Centro, eu não acreditava em meus próprios olhos. Estava tudo sujo... tudo ‘detonado’, tudo feio.  O Centro tinha ‘acabado’.  Então, posso lhe afirmar, com certeza, que a ‘detonação’ total do Centro ocorreu entre 1980 e 1990.  Lulu Maximus, 25 Julho 2008.



página do jornal O Estado de S.Paulo de 1961, mostrando alguns dos filmes em cartaz. O Cine Boulevard já passava 'programa duplo', mas era um cinema muito bom. Cie Rivoli passava 'Um raio de luz', sucesso absoluto de Marisol, com uma ajudinha do galã brasileiro Anselmo Duarte. Cine Normandie já estava na 17a. semana de sucesso com 'Europa de noite'.

o Boulevard era o meu 'queridinho'. Mesmo quando ele já tinha se tornado 'sujinho', eu ainda gostava dele... ia assistir todos os filmes da Doris Day lá... ah que bom.

Fantástica a descrição desses cinemas. Eu me lembro um pouco do luxo de alguns deles, mas tudo me é muito remoto. O primeiro cinema a que fui, foi na Lapa e achei aquilo o maior acontecimento de minha vida aos 9 ou 10 anos de idade. Passavam um filme com a Sofia Loren e a cores numa tela imensa! Naquela época televisão ainda era preto-e-branco e a maior parte dos pobres nem tinha televisão! Lembro que fomos todos muito bem vestidos e meu pai de terno. E olha que a Lapa era bairro bem periférico.

Lembro também que aos domingos o cineminha da igreja da Vila Miriam (Freguesia do Ó) passava sessões matinê. E foi aí que assisti ao ‘Dio come te amo’.

Outra coisa que era fantástica era abrir o Estadão e ver na seção de cinema todos aqueles anúncios e em diferentes categorias. Era tudo tão glamoroso e eram tantos! E depois os cinemas mais afastados. Eu ficava triste quando criança ao abrir o Estadão que meu pai comprava todos os domingos e nunca ter dinheiro para ir. O centro era um lugar distante de "gente rica". Então a gente se conformava, mas mesmo assim sempre sonhava... Lutch Bizin, 2010.

O bonde n. 28 Vila Madalena-Pça Ramos tinha seu ponto Final ali na rua Xavier de Toledo, em frente ao prédio da Light...

Bem, n’outro dia, passando por lá, eu notei que aquela cena está exatamente a mesma de quando a vi pela primeira vez em Dezembro de 1960.  Se você não olhar para o chão, pois a calçada foi alargada, e os trilhos retirados...  se você só olhar do nivel dos olhos para frente... então você verá o Teatro Mvnicipal do mesmo jeito de antes, com o fundo do edificio Votorantin... o Mappin continua o mesmo, visto daquele ângulo... os prédios da Xavier estão mais “detonados”, mas você finge que não é assim... a Light continua igualzinha, se v. não entrar no Shopping. 

Já outro lugar que me dá “dor no coração” de ver quando passo por lá, é a Rua da Consolação, assim que v. passa o Cemitério, na direção de quem está indo para o bairro.

Ali naquele quarteirão ficava o Teatro Record... onde as maiores atrações internacionais se apresentaram... Marlene Dietrich, Yvonne De Carlo, the Ink Spots, Paul Anka, Rita Pavone, Domenico Modugno, Caterina Valente, Sammy Davis Jr., Harry James, Cab Calloway, Ray Anthony, Trini Lopez, Sergio Endrigo, Edoardo Vianello, além dos programas “Jovem Guarda” aos domingos, “Fino da Bossa” na segunda,  “Corte-Rayol” na sexta, “Pequeno Principe” [do Ronnie Von] no sabado,  “Nara & Chico” na quinta, “Bossaudade” na terça, e muitos outros.

Puxa vida... meu Pai teve uma Sapataria alí no numero 2000... o Teatro  Record ficava no 1950...

Mais acima, em direção a Av. Paulista havia o Cine Ritz-Consolação [para diferenciar do Ritz-Avenida São João, que depois mudou o nome para Cine Rivoli] e o Cine Trianon, que depois mudou de nome para Belas Artes... 

O Cine Ritz foi derrubado, para que alargassem a Consolação... antes de ser derribado,  ainda virou o Teatro da TV Tupi, que morria de inveja da TV Record de ter um teatro alí naquele pedacinho de céu... a TV Tupi lançou a TV-a-cores no Brasil  no Cine Ritz... mas não 'pegou'. Precisou-se ainda de mais 10 anos para chegar a TV-a-cores do sistema Alemão em 1972...  mas a festa que a Tupi fez alí no Cine Ritz foi inesquecível... Nelson Gonçalves, Leila Silva, Orlando Silva, Emilinha, Marlene e mais de 20 outros astros & estrelas do nosso
Cancioneiro se apresentaram em cores pela 1ª vez em suas vidas...

Bem, vou parando por aqui, pois já viajei demais...  poderia continuar pela Avenida Paulista com o Cine Astor, o mais luxoso de S.Paulo... e o Jardim de Inverno Fasano, que tinha suas cadeiras e mesas na calçada da Paulista, como se fosse um boulevard de Paris... depois “alargaram” a Paulista e o Fasano desapareceu... Nat King Cole se apresentou ali...

Virando a rua Augusta tinha o Cine Picolino, Cine Regencia (vi o filme 'No reino do iê-iê-iê' (The TAMI Show) ali em 1966, onde aparecia o James Brown dando seu baile de glória – nunca mais fui o mesmo depois de ver o que o Brown fazia no palco...) Cine Magestic, Cine Paulistano ... night clubs dos mais diversos, tipo, Saloon, Lancaster, etc., lojas de discos importados do Miguel Vaccaro Netto... o Juca Chaves passeando com seu carro importado, etc.  Ele até tinha uma musica que começava assim... “Toda tardinha quando a rua Augusta eu desço”...


Em 25 Janeiro 1964, inaugurava o Cine Metrópole, no térreo da Galeria Metrópole na Avenida São Luiz. Praticamente 2 meses antes do Golpe Militar que destruiu a democracia no Brasil, foi, talvez a ultima inauguração de um cinema antes da total derrocada do Centro urbano de São Paulo.

Odilon da Silva Rocha nos escreveu e matou a charada: o cinema que havia na Rua Roberto Simonsen era o Cine Texas. Pesquisei as páginas de cinema do Estadão de 1967, 1969 e 1970, mas só fui encontrar o Cine Texas em 4 Abril 1971.


Aproveito e transcrevo os 2 comentários que Odilon postou: ‘Esquina do pecado’ (Back Street), que você diz ter visto no Cine Paissandu,  foi exibido nos Cines Ipiranga e Astor em 1962, com a presença do John Gavin;  e eu o vi, no cine Astor. Pode ser que depois foi para o Paissandu.

Havia um cinema na rua Libero Badaró, nos anos 70, de curta vida; creio que era no Edifício Conde de Prates. V.  se lembra, qual o nome? Ele exibiu a comedia italiana ‘O transplante’.

O  cinema da rua Roberto Simonsen, era o cine Texas, onde, também, nunca estive. Grande matéria.

O cine Atlas teve também o nome de cine Augustus. Ficava no número 300 da Av. Rio branco. O Cine Mônaco foi rebatizado de Premier, em 1967, reinaugurado com "A Condessa de Hong Kong".

O cine Arizona passou a ser cine América e depois exibiu pornôs. O Normandie foi dividido em duas salas; uma delas, a Sala Bretagne. O Cine Rio Branco foi inaugurado com 'Can-Can", em Todd-AO, um sistema que existia apenas no cine Astor, inaugurado no mesmo ano de 1960. Odilon da Silva Rocha, 4 Março 2015.

Aproveito o ensejo para postar a lista de cinemas do Centro de S.Paulo publicada n 'O Estado de S.Paulo' de 4 Abril 1971. Note que, diferentemente do que eu escrevi no artigo acima, no início dos anos 1970, o número de salas em São Paulo tinha chegado a 50, um total nunca antes visto. Isso sem contar cinemas que tinham mais de 1 sala como o Art Palacio.


Tuesday, March 19, 2013

VALE DO ANHANGABAU


O Vale do Anhangabaú, principalmente o lado leste, sofreu várias mudanças durante do século XX. Veja o que aconteceu com o 'cartão-postal' de São Paulo. As mudanças, as vezes, eram catastróficas, como a demolição desses dois palacetes. Outras vezes foram interessantes, como a 'nivelação' do Vale em si. Até que em meados dos anos 1960, a coisa degringolou de vez e o 'cartão-postal' foi, finalmente, destruído totalmente com a construção do tal Edifício Grande-São-Paulo e seu 'irmão'. Enterrou-se tudo aí. O advento da Ditadura Militar em 1964, sem dúvida, contribuiu para a total idiotização das autoridades urbanas. 

o Palacete do Conde de Prates e a Câmara Municipal de São Paulo eram ligados por uma via em curva que saía da rua Líbero Badaró e voltava a ela mesma. Dos anos 1940 a Prefeitura resolveu nivelar tudo para fazer aí a Rua Formosa.
provavelmente década de 1930, já que o Martinelli (1928) já estava completado. Note o nome do ator hollywoodiano Wallace Beery no topo do Martinelli; talvez propaganda de algum filme estrelado por ele. Casa Kosmos também anuncia na parede da direita.
foto do Automóvel Club... com automóveis enfileirados em sua frente...
1947.
1953 - o predio do Banco do Brasil ainda não tinha terminado (inaugurado em 1954). A retificação (nivelação) da Rua Formosa já estava pronta, já que escavaram a terra que havia em frente da Câmara Municipal, fazendo alí uma calçada, ficando tudo ao nivel do prédio do Cine Dom Pedro II. Note as letras gigantescas de GOOMTEX - aparentemente eram capas-de-chuva de uma fabrica da rua José Paulino - e a garrafa de Coca Cola lá no topo.
Cine D. Pedro II.
O edifício que abrigava o Cine Dom Pedro II, foi construído por Felisberto Ranzini, principal projetista do escritório Ramos de Azevedo. Inaugurado em 1930, possuía diversos salões de baile, escritórios e lojas, tendo sediado a Bolsa de Mercadorias. Derrubado em 1963 para construção do edifício Grande São Paulo e seu 'irmão', acabando assim com o 'cartão-postal' de São Paulo. Seria o equivalente a construir um painel em frente do Christo Redemptor no Rio. Paulista é burro!
18 Julho 1930 - anúncio de reprise de 'Metrópolis' de Fritz Lang no Cine Pedro II, no Parque do Anhangabaú.
'Melodia de arrabalde' com Carlos Gardel & Imperio Argentino em 21 Janeiro 1934.
anúncio n' O Estado de S.Paulo de 21 Janeiro 1934.
Anúncio de 'A vingança que se desvanece' no Cine Dom Pedro II em 1952. 
Mais uma foto do edifício Grande São Paulo, dessa vez em 1928, com o edifício Martinelli já encorpando quase que toda sua extensão final. São Paulo não era New York, mas também impressionava.
1950.

Foto tirada do topo do Banco do Brasil em 1954, tendo a rua São Bento à esquerda e a Libero Badaró à direita. Vendo-se o Othon Palace Hotel quase pronto (inauguraria em 1954 mesmo) e o Conde de Prates nem começado ainda. Esse anúncio da Coca Cola ficava no topo do Edifício Martinelli. Note que a garrafa de Coca ou está em construção ou 'destruição'. 
1959, provavelmente.
same place circa 1928 with Edificio Martinelli being the only one sticking up, looming over the others...
1963?
1963.
1947.


Praça da Bandeira in the 1970s.
Foto de 1959, provavelmente. O prédio contíguo ao Banco de Boston já tinha sido demolido. O prédio do Cine Dom Pedro II estava ainda imponente com enorme neon do Extrato de Tomate Peixe. O casarão da Câmara Municipal ainda estava lá. Os ônibus da CMTC eram vermelhos e os abrigos para passageiros estavam todos intactos ainda. 
O prédio do antigo Cine Dom Pedro II já tinha sido demolido e aquele prédio horrivel (onde se lê Cipra em fundo amarelo) já estava quase pronto.
Essa foto deve ter sido tirada no mesmo dia que a anterior, pois o edifício atrás do Banco de Boston está ainda inacabado.
O prédio contíguo ao Banco de Boston já estava completado. O prédio do Cine Dom Pedro II já tinha sido demolido,  mas a Câmara Municipal ainda estava lá. Deve ser 1962 ou 1963.